Nos relatos de muitos dos pescadores as razões de ingresso na pesca do bacalhau são várias e marcadas pelas circunstâncias. É recorrente em cada história pessoal destacar-se a influência do meio social, muitos deles provinham de famílias de pescadores, mas também a possibilidade de terem uma forma de sustento. Outra razão que foi um factor que impeliu muitos jovens a escolherem a vida do mar era o ‘livrar à tropa’. Durante o período do Estado Novo era dada a escolha de ingressar na pesca do bacalhau como substituto do serviço militar, opção que vários jovens escolheram em especial durante o período da guerra em África.
Albano Fernandes Gomes, antigo pescador do navio-motor Alan Villiers, afirma as razões de ter escolhido a pesca do bacalhau:
Recordo-me que isto foi de 64 para 65. Foi o ano da minha primeira campanha do bacalhau. Ora bem, o que levou a ir para a pesca do bacalhau foi o seguinte, nesse tempo havia guerra. E havia a preferência ou ia-se para a guerra ou para a pesca do bacalhau e eu escolhi ir para a pesca. Tínhamos de fazer seis anos em navios de linha. Salvo erro faltava um ano ou dois para terminar os seis anos na pesca e passámos da linha para as redes de emalhar.
A escolha pela pesca do bacalhau em vez do tempo de serviço militar 1 tinha uma contrapartida, os mancebos tinham que prestar serviço durante seis anos embora vários pescadores digam que eram sete anos. A influência do meio social impelia vários jovens a tomar a decisão, assim recorda António Carlos Picoito, natural da Fuzeta:
Em primeiro o meu pai já era pescador do bacalhau, mas também era para fugir à tropa. Eu fui para o bacalhau com 18 anos e quem fizesse 26 anos antes do fim do ano ficava safo. Vida menos arriscada [gargalhadas]. Naquele tempo em 61 já iam para Angola, mas não era só por isso que queria livrar a tropa, é que toda a malta daqui da fuzeta ia para o bacalhau. Quem era filho de pescador, quase todos foram ao bacalhau.
Conterrâneo do pescador António Picoito era o antigo escalador do arrastão Comandante Tenreiro, António Marcos Guilherme, recorda o pouco entusiasmo pela vida militar e amizades influenciaram a sua decisão:
Não fui para o bacalhau por ser da Fuzeta. Os rapazes quando falavam da tropa e de como era muito rigoroso...e a rapaziada ia toda para o bacalhau e livrava-se da tropa. Eu ainda podia ter a profissão do meu pai, que era da construção civil, mas a malta começou a influenciar-me para ir para o bacalhau e diziam ‘olha que foges à tropa’, e lá fui.
A escolha da pesca do bacalhau tinha os seus riscos, recorda-se amarguradamente João Vieira dos Santos, antigo tripulante do navio-motor Neptuno:
O que levou a ir para pesca do bacalhau? Foi o meu irmão que levou-me para o bacalhau, ele já lá andava. O meu irmão trazia muito dinheiro para casa, não era primeira linha mas era bom, um dos melhores. No meu tempo havia a guerra de Angola e de maneira que pensei em ir para o bacalhau. A minha primeira campanha foi no Neptuno em 1967. Na primeira campanha foi como pescador. A gente foi primeiro à Espanha carregar sal. Paramos em São Miguel para entrar pescadores. No primeiro dia de pesca foi a 13 de Maio, dia em que morreu um pescador que sentiu-se mal ao alar o trol e caiu ao mar. Os botes recolheram e nesse dia não se pescou mais.
A dura vida da faina do bacalhau granjeou junto de muitos pescadores do epíteto de ‘guerra do bacalhau’. Muitos pescadores dizem que ‘aquilo não era nenhum viver andar nos pequenos botes em mar alto com as poucas condições a bordo’.
Mas caso houve de quem não ‘livrou da tropa’ e também foi pescador, é o caso de Francisco Baptista Faleiro:
Com 15 ou 16 anos já fazia vida de mar, mas foi mais tarde que fui para o bacalhau. Depois de estar no bacalhau fui chamado para ir à tropa. Fiz a tropa em Évora na artilharia ligeira montada e não podia ir ao bacalhau. Muitos iam para o bacalhau para fugir à tropa mas não foi o meu caso. Eu para ir para o bacalhau tive de fazer um requerimento ao Ministério da Guerra para ausentar-me de Portugal. E quando vinha da pesca tinha de regressar ao quartel em Évora, ainda andei dois anos nessa vida.
A guerra colonial ficou na memória nacional mas não foi a única ‘guerra’ em que muitos homens portugueses participaram. Entre 1961 e 1974 apenas havia duas escolhas para os mancebos: servir quatro anos em África ou mais de seis longas campanhas na frota da pesca do bacalhau. Durante o Estado Novo recorreu-se a este subterfúgio para aliciar jovens para a faina maior.
Notas:
1 Diário do Governo n.º 73/1927, Série I de 1927-04-08. Decreto n.º 13441, Art.º 23 e 24.
Fontes:
Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau. Museu Marítimo de Ílhavo.
Arquivo do Centro de Documentação de Ílhavo - ‘fotografia de jovens pescadores’’.
