Homens no mar e mulheres em terra. A pesca do bacalhau tinha um forte impacto na vida familiar, com a ausência dos homens as mulheres, sozinhas, cuidavam da casa, trabalhavam e educavam os filhos. As mulheres, verdadeiras matriarcas, geriam os bens e rendimentos da família que os homens lhes entregavam na sua ausência.
Relata dona Maria Nova recorda a gestão das finanças familiares:
«Quando ele recebia ao mês tinha de ter muito cuidado, porque desse dinheiro também tinha de tirar alguma coisa para pôr no banco. Porém, com a mensalidade era mais fácil controlar o dinheiro, para que o dinheiro que ele trouxesse do final da viagem fosse todo para o banco. Com o ordenado dele ao mês dava para gerir melhor os gastos.»
E com a chegada dos homens a gestão doméstica continuava a depender das suas mãos. Recorda dona Crisanta os tempos do seu marido que foi especial no navio Novos Mares:
«Houve um ano que já só chegou em Outubro. Portanto, ele só cá estava durante o Inverno. Mal ele chegava eu começava logo a lavar a roupa suja que ele trazia, para que na altura da partida estivesse tudo prontinho. Eu gostava muito de lhe coser a vela, mas dava-me muita mágoa, pois sabia que ele ia embora.»
Em muitas famílias as condições económicas eram difíceis o que impelia as mulheres a terem trabalhos para sustento dos filhos. Era ainda frequente jovens começarem a trabalhar nas secas do bacalhau ou noutras ocupações em que pudessem ajudar a família.
Em conversa com José Ribeiro, antigo cozinheiro, ele recorda as dificuldades das mulheres e crianças que ficavam em terra:
«Essas são as verdadeiras ‘escravas’. Essas mulheres dos pescadores com um rancho de filhos. As mulheres deles com dois, três, quatro, cinco, seis e sete filhos, na altura era assim. Andavam com uma canastra de peixe à cabeça a vender pelas portas com aquelas crianças todas, essas é que passavam…»
José Ferreira Vila Cova, antigo comerciante das Caxinas, recorda-se que desde o seu tempo de criança a vida em terra decorria ao ritmo da actividade no mar e que as mulheres viviam a "ida para o mar" de uma forma muito particular:
«As mulheres quando os homens partiam para o bacalhau faziam uma arrumação à casa. Elas desfaziam a cama e o colchão ficava ao alto e cobriam com uma peça e iam dormir para o sótão. As mulheres nesse tempo vestiam as roupas mais modestas, as roupas mais fracas porque diziam elas ‘com aquelas roupas a mulher era mais honesta ao pescador’»
Muitas das memórias das mulheres de norte a sul do país, que viveram a pesca do bacalhau a partir de terra, marcaram as vivências domésticas da vida privada das suas famílias.
Fontes:
Costa, Nuno Miguel (2008). Mulheres De Bacalhoeiros: Sazonalidade e Género (1950 – 1974). Tese de Mestrado em Museologia. ISCTE, Lisboa. 127 pp.
Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - Relatos de José Gomes Ribeiro. Museu Marítimo de Ílhavo
Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - Relatos de José Ferreira Vila Cova. Museu Marítimo de Ílhavo
