Museu Marítimo de Ílhavo
HOMENS E NAVIOS DO BACALHAU

Arquivo digital que documenta as campanhas bacalhoeiras desde o início do século XX

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Património de junho: Memórias de focas a bordo

01 Junho 2021
Foca site 1 772 2500

As focas têm um apetite voraz por bacalhau e em vários momentos cruzaram-se com os navios da faina maior que sulcavam as ondas em busca do fiel amigo. Muitos pescadores recordam-se de terem avistado focas nas águas dos grandes bancos e da Groenlândia. Era frequente as pequenas focas ficarem à deriva em ilhas de gelo enquanto a progenitora se vai alimentar. Mesmo as focas adultas usam os ‘icebergs’ como sítios de descanso e refúgio para evitar predadores. Noutros casos avistavam as focas a tentar caçar bacalhaus.


O sr. João Cavaz, antigo maquinista, recorda-se numa das primeiras viagens que fez, ainda na pesca à linha, que tiveram uma foca a bordo.

A foca foi apanhada no trole de pesca e ficou emaranhada, o animal ficou ali preso, depois o pescador meteu a foca no bote e trouxe para bordo. Ela ainda vinha viva quando chegou a bordo. Era uma foca que se calhar pelo tamanho, assim muito pequenina, devia ser um pouco mais velha que bébe. Um metro não tinha, mas andava à beira de um metro. Depois a bordo o capitão mandou pô-la numa celha onde era lavado o peixe. E ela lá esteve. Davam-lhe peixe que era aquilo que ela queria e havia sempre peixe fresco todos os dias. E o animal lá estava, era um divertimento para toda a malta.

Era frequente haver animais domésticos a bordo, mas animais selvagens sempre foi algo de diferente na vida a bordo como recorda o sr. João - Sim, era de fácil adaptação doméstica. Deixava-se coçar, deixava fazer festinhas. Já estava connosco há uns tempos e toda a malta se afeiçoou ao animal, porque estar sempre dentro de um navio em alto mar e ver uma coisa diferente é sempre agradável.

Este não foi o único caso de uma foca ter sido animal de estimação a bordo. Anos mais tarde, num navio de arrasto, tiveram uma foca que acabou por fazer a viagem de regresso da tripulação para Portugal. O capitão do navio comunicou para terra e à chegada a foca foi entregue ao Jardim Zoológico de Lisboa.

João Nunes Cavaz, natural de Ílhavo, foi maquinista e andou embarcado mais de vinte anos em navios da pesca do bacalhau.

Fotografia cedida por Francisco Vida