Museu Marítimo de Ílhavo
HOMENS E NAVIOS DO BACALHAU

Arquivo digital que documenta as campanhas bacalhoeiras desde o início do século XX

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Património de abril: Benção dos Bacalhoeiros

01 Abril 2021
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A benção dos bacalhoeiros cooptada nos meados dos anos 30 por parte das instituições do Estado Novo era um dos acontecimentos anuais de maior relevo no calendário propagandístico do sistema. A sua feição de festa popular celebrada ano após ano, entre o Mosteiro dos Jerónimos e o rio Tejo, exaltava o passado dos descobrimentos e abençoava a frota bacalhoeira portuguesa. Após as celebrações, as tripulações içaram as velas e navegavam as 1800 milhas que separam Portugal dos grandes bancos da Terra Nova.


Desde os anos 30 que a benção despertava nas gentes de Lisboa um misto de curiosidade e fascínio por estes homens que iam para águas longínquas pescar o nosso bacalhau. Durante o Estado Novo a cerimónia revestia-se de um duplo significado religioso e político. Hoje perduram as memórias daqueles que foram ao mar.

«A nossa família ia sempre à nossa despedida, íamos de comboio até Lisboa. Depois a bagagem era levada do cais da estação para o navio» - diz Francisco Faleiro, pescador da Fuzeta.

Manuel Gabriel, que embarcou pela primeira vez no navio ‘Rio Alfusqueiro’, recorda-se: «Embarquei então a meados de Abril, deixando para trás um mar de lágrimas nos rostos dos meus queridos pais e de toda a família».

«Nós íamos de comboio da Fuzeta para Lisboa e os navios punham-se ali em Belém à frente dos Jerónimos; a família ia também. Eu levava a minha esposa a Lisboa e ela ficava lá até a hora da despedida. Íamos cinco ou seis dias antes, e nesses dias por Lisboa ía-se comprar qualquer coisa para comer no navio, para não ser sempre a mesma coisa, umas bolachas e vinho do porto, era assim. Os navios estavam ali no rio Tejo e estava depois lá o capelão a dar a missa e nós assistia-mos. A missa era importante, era também o tempo de despedir da família, e depois vinham as saudades». - Francisco Faleiro recorda com mais detalhe uma das bençãos dos bacalhoeiros.

As alterações ecológicas, económicas e políticas levaram a uma transformação do paradigma da pesca do bacalhau. Com o passar dos anos a benção dos bacalhoeiros que exaltava os descobrimentos e o esforço dos pescadores começou a tomar uma figura anacrónica, pois neste período já nenhum país operava uma frota veleira de pesca em águas longínquas.


Notas

Francisco Baptista Faleiro, natural da Fuseta, foi pescador no navio Neptuno II.

Manuel Maria Domingues Gabriel, natural da Praia de Mira, fez a primeira viagem em 1960.

Fotografia do Centro de Documentação


Fontes

1 GABRIEL, Manuel - Atrevimento de um pescador. Folheto Edições & Design, 2014, p. 17.