Museu Marítimo de Ílhavo
HOMENS E NAVIOS DO BACALHAU

Arquivo digital que documenta as campanhas bacalhoeiras desde o início do século XX

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Peça do mês de novembro: faca de escala

01 Novembro 2020 a 30 Novembro 2020
Faca de escala   site mmi 1 772 2500

Fosse pescado à linha ou por rede o bacalhau tinha o destino traçado pelo fio da faca de escala, que em gestos rápidos eram abertos e, seguidamente, enviados para o porão. As facas de escala nas mãos certas eram instrumentos de precisão e ligeireza. Vários escaladores afirmam que nem todos eram capazes de ter a agilidade suficiente para ‘tratar do peixe’.

Elmano Pio da Maia Ramos, que iniciou a sua vida no mar como piloto e mais tarde foi imediato e capitão, descreve como eram selecionados os homens para a função de escalador:

Todos os anos o Imediato escolhia ou perguntava quem é que tinha menos medo de trabalhar com a faca. Sim é preciso ter-se coragem, estar ali a trabalhar com uma faca bem afiada. Havia os que diziam ‘eu quero ser!’ Então eles iam praticar. É claro que o peixe ficava mal escalado, porque é natural. Mas depois de terem praticado começavam por substituir algum que adoece-se.

Em entrevista para o museu o antigo escalador Manuel Lopes Soares, lembra-se «como se fosse hoje, só ia para escalador quem não tivesse medo da faca e os que seguravam com mão direita. Se não fosse assim não dava para trabalhar porque as mesas estão postas de um jeito que só dava para esses». «Um bom escalador tinha que conseguir fazer 16 peixes por minuto.» afirma com um certo tom de satisfação o antigo escalador do arrastão ‘David Melgueiro’, José Simões Marques. Das suas memórias relata-nos como foi o seu percurso na pesca do bacalhau e como conseguiu chegar a escalador.

Foi como verde ao bacalhau, e no ínicio puseram-me a tirar as línguas, as caras de bacalhau, e também tinha de lavar o bacalhau. No segundo ano, chamam eles de maduro, e eu nesse ano já foi de maduro, nós já íamos para os quetes e abríamos o bacalhau. Depois começámos a fazer o trote, a tirar o fígado que depois ia para uma calhazinha e ía para as máquinas para fazer óleo. E o bacalhau corria por outra calha para dentro de um celha onde havia outras pessoas a partir-lhe a cabeça e a pô-lo numas mesas para os escaladores escalarem, pois antigamente o bacalhau era escalado e salgado tudo à mão.

A escala do bacalhau nos navios do arrasto decorria com algumas diferenças, mas no essencial a forma de trabalhar mantinha-se inalterada desde a pesca à linha.

Ora eu [José Simões Marques] vi muitas vezes o saco a ser vazado dentro dos quetes. Ali temos uma bancada muito grande em comprimento, no convés, praticamente ao ar livre só tem um coisinho [toldo] por cima. [Na bancada] tem uns picos e do outro lado tem uma calha, os pico são uns pregos assim espetados pra cima. A gente agarrava no peixe, espetávamos no prego e com a faca ‘zás’ e ele abria, depois atirava para o outro lado e o fígado corria numa calha com água [...] Em cada mesa encontrava-se um escalador ao pé o parte-cabeças, ele partia a cabeça e punha-lhe o bacalhau em cima da mesa, e depois o escalador escalava. Havia outra calha grande, mais larga, sempre a correr água, e depois o bacalhau ia por essa calha fora com água a correr por cima dele para lhe tirar o sangue e a cair numa grande selha com água. Havia lá depois um homem nessa selha com um cesto grande em verga tirava o bacalhau, um cesto daqueles cheio era um quintal de bacalhau. Com um cesto desses cheio vazava para o porão, caí pelo alboi como nós chamávamos, e dentro do porão embaixo encontrava-se os salgadores[...]

 

As facas entregues aos escaladores eram mantidas em exímias condições, pois delas dependiam no seu trabalho. Embora não fosse frequente aconteciam acidentes no manejo das facas, Manuel Pinto, cozinheiro e vários navios do arrasto, recorda que chegou ser enfermeiro e a realizar alguns curativos aos colegas que fizeram cortes nas mãos e dedos durante a escala do bacalhau. Manuel Lopes Soares, recorda-se de colegas terem ficado com golpes nas mãos e outros com partes dos dedos cortadas devido às lâminas afiadas das facas de escala.

 

Créditos Fotografia: Helena Julião

Fontes:

Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - Relatos de Elmano Pio da Maia Ramos. Museu Marítimo de Ílhavo.

Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - Relatos de Manuel Augusto Lopes Soares. Museu Marítimo de Ílhavo.

Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - Relatos de José Simões Marques. Museu Marítimo de Ílhavo.

Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - Relatos de Manuel Pinto. Museu Marítimo de Ílhavo.