Museu Marítimo de Ílhavo
HOMENS E NAVIOS DO BACALHAU

Arquivo digital que documenta as campanhas bacalhoeiras desde o início do século XX

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Peça do mês de julho: Os dóris nos naufrágios

01 Julho 2020 a 31 Julho 2020
Patrimonio2 1 772 2500

Os dóris ficaram na memória coletiva portuguesa como símbolo do pescador-marinheiro. Embarcações de fundo chato, de face plana e de popa estreita foram adaptadas para serem tripuladas por um só homem, enquanto que os dóris usados por franceses e ingleses eram de maiores dimensões. Os dóris de modo algum são botes salva-vidas, contudo histórias de sobrevivência recordam o papel destas embarcações em situações de naufrágio.
A partir do protesto de mar do incidente com o lugre Oliveirense constatamos que nos momentos aflitivos vividos pela tripulação e da única forma de escaparem com vida foi a bordo dos dóris:


"Aos oito dias do mês de Agosto de 1965, encontrando-se o lugre motor Oliveirense aos comandos do Capitão Mário Paulo do Bem, sucedeu que pelas 18.30 locais, estando apenas chegado a bordo cerca de doze botes, se manifestou na casa da máquina, violento e rápido incêndio. Tendo aquela ficado imediatamente a parte da popa, camarotes, salão e o camarote do Capitão, cheios de fumo.
Acorreu-se imediatamente ao local do incêndio, para combate-lo supondo-se este ter sido originado por um forte curto circuito na instalação eléctrica, tão violento que interrompeu a corrente eléctrica em todo o navio.
Desenvolvendo-se rápida e tão intensamente o fogo naquele local, o qual começou logo a ser combatido com os recursos existentes a bordo, (extintores), verificando-se, todavia, que todos os esforços empregados neste sentido eram impotentes para debelar o fogo.
Considerada tão crítica situação pelo Capitão do navio e principais da equipagem, por se irem vendo perdidas as possibilidades de salvação do navio e ainda por ser impossível utilizar a fonia, que se encontrava instalada no camarote do Capitão, resolveram tomar medidas de salvação, e assim reunidos em conselho, os mesmos, Capitão, oficiais e principais da equipagem e de comum acordo, dar ordem de abandono do navio, aos tripulantes que se encontravam a bordo, para o que arriaram as embarcações miúdas, o que fizeram pelas 20.00 locais, e nelas se dirigiram para bordo do navio motor São Jorge, que se encontrava muito perto."


No fatídico dia de 26 de Agosto de 1955, recordado por António da Rocha Santos, o Ilhavense II, envolto em chamas, naufragava à vista de toda a tripulação que tinha abandonado o navio nos últimos momentos.


"O incêndio deflagrou mais ou menos por volta das 8 horas da manhã na casa da máquina, foi impossível regular o incêndio. Entretanto foi pedir o SOS cerca das 8.30 e o capitão deu ordem de evacuação, tive de ir buscá-lo porque era uma fumarada terrível e ele já estava um bocado atrapalhado.
Entretanto saltamos para os dóris sem ter a certeza do SOS ter sido enviado ou não. Foi um naufrágio rápido. As condições metrológicas a piorarem, ventos de oeste, chuva, mar de vaga e nós nos dóris! Eu fiquei num dóri com três tripulantes, foi o penúltimo a saltar e depois foi o capitão, passamos momentos muito amargos e aflitivos!
Estivemos assim cerca de 12 horas no mar!
Por volta das 20.30 já praticamente noite avistamos um projector a varrer o horizonte, uma luz lá ao longe, ficamos então esperançadíssimos. Era o USCGC Mendota, aproximando-se dos dóris parou a máquina e ficou à deriva do lado do barlavento e estendeu as redes no costado do navio e fomos resgatados!"

Em situação semelhante salvou-se a tripulação do lugre José Alberto, em 1968, a tripulação do lugre Silvina, em 1941, e os 33 homens do lugre Ilhavense, em 1929.
Dóri, uma simples e versátil embarcação que se tornou para muitos homens do mar símbolo de sobrevivência e esperança.



Fontes:

Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - Relatos de António Tomé da Rocha Santos. Museu Marítimo de Ílhavo.

Museu Marítimo de Ílhavo. Navio Oliveirense.
Disponível em: http://homensenaviosdobacalhau.cm-ilhavo.pt/header/navios/show/145
Em: 24 de Março de 2020

Museu Marítimo de Ílhavo. Navio Ilhavense II
Disponível em: http://homensenaviosdobacalhau.cm-ilhavo.pt/header/navios/show/28
Em: 24 de Março de 2020

Museu Marítimo de Ílhavo. Navio José Alberto
Disponível em: http://homensenaviosdobacalhau.cm-ilhavo.pt/header/navios/show/42
Em: 24 de Março de 2020

Museu Marítimo de Ílhavo. Navio Silvina
Disponível em: http://homensenaviosdobacalhau.cm-ilhavo.pt/header/navios/show/205
Em: 24 de Março de 2020

Museu Marítimo de Ílhavo. Navio Ilhavense
Disponível em: http://homensenaviosdobacalhau.cm-ilhavo.pt/header/navios/show/91
Em: 24 de Março de 2020

Protesto de Mar do Lugre Oliveirense. Site Navios e Navegadores. 24 de Janeiro 2020.
http://naviosenavegadores.blogspot.com/2010/05/navios-bacalhoeiros-do-porto.html