Museu Marítimo de Ílhavo
HOMENS E NAVIOS DO BACALHAU

Arquivo digital que documenta as campanhas bacalhoeiras desde o início do século XX

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Património fevereiro: Pesca do bacalhau durante a II Guerra Mundial

01 de Fevereiro de 2021
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Em 1939 irrompe a Segunda Guerra Mundial envolvendo várias potências num conflito à escala global que atravessou continentes e mares. Os submarinos alemães percorriam todo o Noroeste Atlântico causando um rasto de destruição, tornando a pesca do bacalhau num arriscado empreendimento.

A balança comercial portuguesa deficitária no que respeita às necessidades de abastecimento “do pão do mar” para a população levou o regime a adoptar uma posição de intransigência mantendo a frota a laborar. O risco de vida das tripulações era bem real, para tal a propaganda do Estado Novo promoveu a ideia de uma frota de paz, que navegaria em segurança. Algo que não se verificou com o afundamento do lugre “Maria da Glória” e do “Delães”, trágicos incidentes que embora tenham sido noticiados não levou as elites do regime a mudar de posição.

Durante a guerra foram estabelecidos convênios com os aliados e com as forças do eixo no que respeita aos navios de pesca e da marinha mercante. O intuito dos pontos acordados era assegurar a segurança da frota em laboração, para isso foi decidido que os arrastões eram pintados de preto e os lugres de branco, e o costado tinha de ter pintado a bandeira portuguesa e o nome do navio.

É neste contexto que João Laruncho de São Marcos relata a sua primeira viagem aos Bancos da Terra Nova, «acabei o meu curso da escola náutica e fui obrigado a embarcar. Estávamos em plena guerra e havia navios que estavam amarrados e carregados para ir para o mar». A razão dos navios estarem ancorados à espera de sair do porto devia-se a um dos pontos acordados em que a navegação tinha de ser feita em certas rotas e a viagem até aos bancos da Terra Nova era feita em comboio sob as orientações de um oficial da armada - tinham um capitão, mas faltava-lhes um oficial de marinha.

João Laruncho de São Marcos, piloto do navio São Ruy nos anos de 43 e 44, recorda-se que «os comboios foram constituídos em 1943 e no meu navio seguia um dos oficiais da marinha, pois [o navio arrastão São Ruy] tinha melhores condições».

Destas viagens o que melhor se recorda não foi do conflito no mar mas antes um acontecimento que o marcou para toda a vida.

Assim relata o antigo piloto:

«Sabe, quando fui para a pesca do bacalhau comecei no São Ruy, não escolhi o navio, mas o meu tio era o capitão Aquiles Bilelo. Na segunda viagem aconteceu aquilo que eu impedi o Felismino da Serafina fazer. Este pescador da Nazaré levou o seu filho com 17 anos para a pesca do bacalhau, o rapaz com a 4º classe feita.
Num dia de pesca ficamos debaixo de mau tempo e o rapaz perdeu-se. O pai e o tutor pediram ao capitão e arriaram dois doris, e com eles foram mais dois pescadores, com 5 remos, pois debaixo de mau tempo pode fugir algum remo.
E daí por duas horas aparecem por entre o nevoeiro aquelas sombras com o ‘Manuelzinho’. E eu que sofri terrivelmente com a situação do ‘Manuelzinho’, mas quando os vejo...e até foi um dos moços que viu primeiro, estávamos ali sete homens à espera. O filho vinha no meio do dóri, e eles a remar! E eu satisfeito fui ter com eles, à minha frente ia o Felismino da Serafina com o filho e começou ao murro e a bofetada ao filho...e eu atiro-me ao pescoço do homem e prendi-o, e quando ele olha pra trás e vê que sou eu diz: ‘Oh! Senhor piloto não me desgrace, não me desgrace!'. E o capitão que era meu tio e que estava lá em cima a ver tudo isto disse: ‘João! Larga esse homem, que esse rapaz que hoje ia perdendo a vida, amanhã já não se lembra e cai na mesma [à água], mas esse arraial de pancada que leva a frente de tantos espectadores nunca mais se esquece.' E eu jurei a mim mesmo nunca mais assistir a uma cena tão violenta como esta. Foi cruel."

João Laruncho de São Marcos, mais tarde capitão, afirmou que apesar de nunca ter sofrido um ataque como o do Delães e Maria da Glória a vida no mar era difícil.



Fontes:

Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - João Laruncho de São Marcos. Museu Marítimo de Ílhavo.

MARQUES, João David Batel - A Pesca do Bacalhau - História, Gentes e Navios - A História e as Gentes. Tomo I. Viana do Castelo, 2018.

Bolé, António Augusto Reis Freire - A pesca do bacalhau durante o período do Estado Novo (1933-1974)

Arquivo do Centro de Documentação de Ílhavo - fotografia do arrastão ‘São Ruy’.

Informação adicional: