Museu Marítimo de Ílhavo
HOMENS E NAVIOS DO BACALHAU

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Património janeiro: Idas a terra - memórias em Saint John's

01 de Janeiro de 2021
Chegada a terranova 1 772 2500

Em muitos dos habitantes de Saint John 's ainda se mantém presente a memória dos navios da frota bacalhoeira atracados no porto e da animação que as tripulações davam à cidade quando vinham a terra. A vinda dos navios ao porto da maior cidade da Terra Nova era esporádica e devia-se quase sempre a três motivos: obter material e combustível para o navio, provisões para as tripulações ou ainda salvaguardar-se de condições climatéricas adversas que fustigam os grandes bancos. Por outros motivos, cruzavam os navios a Signal Hill para entrarem no porto, acontecimento singular foi o centenário da Basílica de São João Baptista da Terra Nova que teve a participação de muitos dos nossos pescadores.

O ponto alto das festividades do centenário da basílica foi a 27 de Maio de 1955, quando milhares de pescadores portugueses percorreram as ruas que ligam o porto até ao topo mais alto da cidade. Neste percurso levavam consigo nove imagens que foram entregues ao arcebispo Patrick James Skinner pelas mãos do capelão da frota António de Sá Rosa.

Uma vez em terra, a maioria dos pescadores pretendia descansar da vida do mar aproveitando os poucos momentos para entreter-se e ir às compras.
José Matias Marçalo, moço no navio Neptuno entre 1970 e 71, recorda-se da primeira vez que foi a terra e percorreu as ruas de Saint John’s - «eu de moço era raro sair, pois eu e os meus colegas tínhamos de pôr os mantimentos a bordo, e depois era uma folga para comprar uma coisa qualquer para levar para casa.»
Uma certa euforia tomava conta dos homens quando a longa rotina diária de trabalho nos grandes bancos era interrompida, assim lembra-se José Marçalo «quando um homem ia a Saint John’s era uma maravilha». Permanecem as vivências de centenas de pescadores que percorriam a Water Street olhando as montras das lojas à procura de algo para levar para as suas famílias que tinham deixado do outro lado do Atlântico.

«E depois, em terra, juntávamo-nos com os amigos da Figueira da Foz, num dia comíamos num navio e no outro dia íamos a outro navio. Depois dávamos umas voltas por Saint John's e víamos coisas boas, as mulheres, e havia muitas! E lá íamos para os bailaricos e os bares entreter.»

Tanto oficiais como pescadores aproveitam este tempo para escreverem cartas aos seus familiares que ansiavam por novidades. Quando os pescadores portugueses entravam nas lojas ou iam aos bares havia sempre um choque cultural e a barreira da língua, mas como recorda Manuel Augusto Lopes Soares «aquilo com os gestos acabamos sempre por nos entender, e havia sempre um ou outro que sabia um pouco de Inglês e lá nos entendíamos»
As memórias das idas a Saint John’s ainda hoje são lembradas com alegria por milhares de pescadores e para muitos com uma afeição especial.


Fontes:


Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - Relato de José Domingos Matias Marçalo. Museu Marítimo de Ílhavo.

Arquivo de Memórias da Pesca do Bacalhau - Relato de Manuel Augusto Lopes Soares. Museu Marítimo de Ílhavo.

Jornal o Pescador

Jornal do Pescador, julho 1955, pp.10-38.

Informação adicional: