Museu Marítimo de Ílhavo
HOMENS E NAVIOS DO BACALHAU

Arquivo digital que documenta as campanhas bacalhoeiras desde o início do século XX

"A Saga do Bacalhau" na Assembleia da República

06 Junho 2017 a 29 Setembro 2017
Saga bacalhau 1 772 2500

A 6 de junho, a Assembleia da República dedicou uma jornada especial ao tema da pesca do bacalhau e ao bacalhau enquanto produto económico. A iniciativa foi enriquecida pela exposição "A Saga do Bacalhau", promovida pela Museu Marítimo de Ílhavo, com fotografias e um vídeo de Alan Villiers. Estará em exposição até 29 de setembro, nos corredores envolventes do Hemiciclo (dias úteis - 10h30-12h30 | 15h00-17h30).

A pesca do bacalhau é uma atividade económica multissecular, embora muito irregular em Portugal. A condição de grande importador e a tradição do consumo de bacalhau salgado seco são as variáveis mais constantes de um património lendário que define a identidade portuguesa.

O peso do bacalhau na balança comercial e os seus efeitos no deficit externo português justificaram a intervenção protecionista do Estado Novo numa indústria que foi organizada através de instituições corporativas e organismos de coordenação económico. O condicionamento das importações, o fomento da produção nacional e o controlo vertical do abastecimento foram os aspetos chave da intervenção do Estado autoritário. Criada em 1934, a Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau funcionou como cartel de Estado, dirigindo todas os segmentos de circulação do produto, da pesca, à transformação, do negócio importador ao retalho.
A Campanha do Bacalhau teve o seu manto ideológico e a sua dimensão política, bem evidente na organização corporativa das pescas e na sua oligarquia. A produção de rituais populares como a bênção dos bacalhoeiros e outras formas de reprodução de um projeto de “fomento económico nacional” sedimentaram um programa de autarcia que promoveu com eficácia a substituição de importações. Cartazes de propaganda, jornais de atualidades, emissões de rádio e filmes exaltaram a renovação da frota bacalhoeira e a normalização do abastecimento. Com o fim da II Guerra Mundial, a propaganda atinge o seu auge e, em 1950, desafia Alan Villiers, um oficial da Armada australiana e repórter do National Geographic Magazine, a viver e contar uma viagem aos bancos da Terra Nova a bordo de um veleiro português.

A pesca do bacalhau com dóris de um só homem era a última atividade económica que fazia uso da navegação à vela em viagens transoceânicas. Vistas à distância do tempo, as suas imagens são belas e invocam uma certa harmonia. Na realidade, era uma saga cruel, um trabalho duríssimo que todos os anos levava cerca de cinco mil homens à Terra Nova e à Gronelândia para “trazer à Pátria o pão dos mares”.
Depois de embarcar no Argus, Alan Villiers compôs um tríptico que correu mundo: um livro (com edição original em inglês, em 1951, e tradução portuguesa meses depois), um filme e um magnífico álbum de fotografias, que permite entender os múltiplos significados deste património singular.

Álvaro Garrido