Museu Marítimo de Ílhavo
HOMENS E NAVIOS DO BACALHAU

Arquivo digital que documenta as campanhas bacalhoeiras desde o início do século XX

A Barca dos Apóstolos

26 de Janeiro de 2012
Mmi 1 1 772 9999
Depósito da Família do Tenente Alberto da Maia Mendonça e esposa Maria Casimira Gomes da Cunha
Nenhuma comunidade se sustém sem alimentar os seus mitos. De entre as narrativas que compõem a identidade de um colectivo, as mais celebradas e disputadas são as que falam das origens. Lugares de memória, os museus devem estimular essa constante invocação de um passado feito de realidade e lenda.
 
Para que esse jogo memorial-identitário se desenrole são precisos rituais apoiados em objectos densamente simbólicos, quase totémicos. A “Barca dos Apóstolos” que agora reside no Museu graças à generosidade da família do Tenente Alberto da Maia Mendonça e esposa Maria Casimira Gomes da Cunha significa muito para os ilhavenses. Durante largos anos foi barco de andor, primeiro na remota festa que, em Ílhavo, os pescadores dedicavam a S. Pedro Apóstolo, depois na Senhora da Saúde da Costa Nova – também conhecida como a “festa das companhas” – e, mais recentemente, na festa ao Senhor Jesus dos Navegantes, que a nível local se ligou à pesca do bacalhau.
 
Este magnífico barco enegrecido pode, porém, significar muito mais do que um barco processional, caso lhe queiramos atribuir novos significados. Testemunho votivo da Diáspora dos Ílhavos, invoca a mítica “companha dos luizes”, certamente uma homenagem a todos os pescadores que, aprisionados nas areias de S. Jacinto, após a abertura da barra, no início de Oitocentos, começaram a levar as suas companhas a múltiplos pontos do litoral. Esta peça há muito desejada para o Museu e ligada às suas origens permite invocar diversos ciclos da maritimidade local, uma índole marítima, primeiro ancorada nas pescarias locais e costeiras, mais tarde nas pescas longínquas. Numas como noutras, o pescador nunca foi outra coisa senão um frágil tripulante de um barco de mar.